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Nu

Será que inconscientemente escolhi o atraso pra perder o ônibus e ganhar o ônibus que me permite sentar outra vez ao lado teu? A postura disfarça a forma os óculos de sol disfarçam a feiura do rosto a roupa social disfarça o socialista os modos disfarçam o degenerado a poesia disfarça a miséria da alma sem graça e cálida como um homem qualquer. Sigo nesse disfarce de paradoxo impasse... Mas seu perfume não se disfarça (a mim), Sua beleza não se disfarça, Sua perna exposta - de pele, pelo e pelve proeminentes - não se disfarça, bem como sua indiferença… Que olhou de soslaio só e avaliou rápido como um raio registrando padrões, incompatíveis com os seus; descartou-me, já que o disfarce não se sustentou. O disfarce não se sustenta. Arnaldo Ventura Gostou deste poema? Leia também Sexo Kamikaze .

Estudando as estrelas II

Se quando encaro uma estrela, ela já é morta... quando ela me encara de volta eu ainda nem nasci? Arnaldo Ventura Adquira 'Rosário', meu novo  e-book ,  clicando aqui !

Insight (áudio, poesia)

Matilha

Dia desses era tarde da noite e nós saímos pelas ruas e corremos e brincamos como corriam e brincavam os filhotes dos cães nas ruas. Saímos pelas ruas em busca de liberdade e de subversão à ordem apodrecida. Esses dias nós saímos como sempre fizemos: cada um era líder da matilha; ninguém era líder de ninguém. E brincamos e rimos. Ah, como nós nos rimos! E fomos também ao rio e nos despimos por completo. Brincamos de rinha de galo: Eduardo montava Gustavo, eu montava Renato. Encara, empurra, soca, imobiliza, arranha, faz cócegas… Falávamos “putarias”. Cada frase dita em que sugeríamos coisas entre o amigo e outro cara vinha acompanhada de um sonoro “OOOUAAAAAAA!” ** com cada vogal muito bem pronunciada, obrigado. Éramos irmãos: saíamos juntos, dormíamos juntos, descobrimos quase tudo juntos. Éramos coroinhas na igreja, às vezes eu usava a batina de Eduardo, às vezes era Eduardo que usava a minha… E aos poucos nossa matilha foi se dispersando. Eduardo foi morar fora, Gustavo e ...

Vênus em Áries (conto)

Tenho saído com o mesmo cara já faz um tempo… É namoro? Não é?... Ele é gentil, um tipo interessante. Tá ali descrito num poema que escrevi aqui, num conto acolá. A gente acaba e ele vai embora, a gente goza e logo dá a hora… Por um tempo pensei que ele era de personalidades múltiplas, mas não… Existe um padrão e percebi que sempre volto pra esse mesmo cara: cabelos cacheados, pelos, barba, brinco, tatuagem, ouve música alternativa, politicamente de esquerda, maconheiro… Não que seja ruim voltar pra esse cara. Pelo contrário: eu gosto. Mas é que eu não tinha planejado uma união estável agora… O destino sempre nos coloca cruzando as mesmas esquinas, mas o alinhamento dos planetas sempre nos põe em tempos distintos. Como um relógio quebrado que acerta a hora duas vezes ao dia, nossos ponteiros algum dia se alinharão no tempo? Vênus em Áries… A desculpa é sempre de ordem metafísica, mas a física concreta dos fatos é que a gente só se vê na surdina, no escuro, casualmente, ...

Estudando as estrelas III

que noite maravilhosa de incontáveis estrelas no céu! vão até o limite do horizonte de incontáveis estrelas no asfalto. olho para cima e sei que são exatamente as mesmas de há quinze anos, quando já estavam mortas - insistem os cientistas. mas não sei porque me surpreendo, entra nuvem, sai nuvem, me encanto. e o pior é que são as mesmas! exatamente as mesmas! pras estrelas do asfalto abriram ruas - aqui, ali... mas as do céu... essas não mudaram! mudou a minha miopia, que já não dá conta... mudou meu sentimento, que com o vento se expande. mudaram os meus medos, que já não são mais os mesmos; mudou-se pra cá a saudade: eternidade. Arnaldo Ventura (Estudando as estrelas II)

sexo kamikaze

fodo para desfazer o enfado e, não raramente, "falo". - de fedor quase cheiro, na verdade, um cheiro fálico. mil demônios dentro de mim. à direita da minha consciência o seu filho se senta, carregando consigo o fardo. na praça, o duque de farda, a distinção militar que me falta... e é sem disciplina que o faço, ao contrário, sou bagaço; de moral falida, de honra ferida; faço com sete, com cinco, com quatro, no mato, na rua, no quarto, me sujo, me deito, me mato - aos poucos - mas à rotina sempre volto e trabalho feito um louco. Arnaldo Ventura Fica mais! Leia aqui 'Estudando as estrelas II'.